A VIAGEM
A velha levou-os com o olhar até a porta, que não ia se erguer de sua cadeira onde fazia crochet. Fez mentalmente uma breve oração que julgava podia protege-los em sua incursão pelas ruas movimentadas da cidade e sorriu satisfeita em poder vê-los felizes, bonitos e bem vestidos, alegres no exercício da vida. Pequenos momentos como esse frequentemente traziam memórias de outros momentos vividos, antigos, nem sempre importantes mas que emergiam no seu pensamento como cenas de um filme já visto. Ela as vezes até usava esses flashes de memória pra comparar os costumes próprios de cada tempo. Achava isso interessante, uma vantagem de sua condição
Foi com admiração que viu a porta se abrir. Alguém voltando? Não. Era um rapaz que nunca vira antes. Cabelo claro, não era muito jovem mas certamente não era um homem velho. A fisionomia suave sorriu para ela e se aproximou com certa intimidade. Ela parou o crochet e olhou atentamente para o rapaz. Era um rosto bom que olhava pra ela com o zelo de um ente querido. Sentiu de imediato que ele tinha algo a fazer, ou a dizer. Por alguns momentos palavras não foram ditas; ela mesma não sabia porque apenas se olhavam, sem falar.
-A senhora me esperava?
-De certo modo, sim. Só não sabia quando você viria.
-E, ninguém sabe quando chega esse dia. A senhora me parece pronta ...
- Sim, na verdade, há muito tempo me preparo para esse instante.
- Há alguma coisa que a senhora queira fazer? Muitas pessoas deixam algo escrito, alguma coisa que ainda não foi dita, por exemplo. Não faça cerimônia.
- Seria tolice. Eles sabem tudo de mim, de bom e de ruim. As palavras soariam, como sempre, inadequadas.
O rapaz sorriu.
A senhora é engraçada. E eu acho que a senhora tem razão.
-Entao vamos?
A velha prendeu a agulha no novelo com as mãos tremulas.
-Vamos.
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domingo, 17 de agosto de 2008
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